27.5.06

Não São Tão

A Naim Rocha

Umas vozes suaves,
Que me vêm de longe
E encantam, abrandam,
Os dias cruéis...
Não são tão suaves:
São como as aves
Que com espalhafato
Batendo suas asas
Aos bandos voejam
Por aí!

Os sorrisos de criança
Junto ao vidro do carro
Assustam e espantam
Na avenida...
Não são tão sorrisos:
São traços nervosos
Nem sempre ditosos
Querendo vender
Mariola e bala
Pra um qualquer!

As piscadas vermelhas
Do sinal de trânsito
Espalham centelhas
No cruzamento...
Não são tão vermelhas:
São advertências puras
De um perigo à vista
Que quem tá na pista
Conhece quem fura
O sinal e a vida!

Os sons das buzinas
Dos carros detrás
Espalham algazarra
Na cidade...
Não são tão sons:
São bofetadas no rosto
E quem tá disposto
À vida prosseguir
Esquece o barulho
Imagina canções!

Os guardas no rush
A pista estreita
Passagem apertada
Na blitz...
Não são tão guardas:
São coletores de ódio
A partir de seu ócio.
Não há segurança
Há medo e revolta
Gastança!

19.5.06

O CHAMADO

A Cleir Gonçalves dos Santos

Uma voz. De onde vem?
O pequeno Samuel não sabe.
É diferente, soa grave, forte.
E o discurso que contém
É conteúdo que não cabe
Num coração em corte.

Sangra. A dor é grande.
A voz que fala conclama
Tímpanos não acostumados...
A emoção no imo expande
E no pequeno ser a chama
Arde. Conceitos abalados.

A voz o chama pelo nome
E ele a sente bem audível
Naquele leito revolvido.
O menino, de Deus tem fome.
Sonha o sonho que é possível
No peito arqueado, comovido.

A voz é repetitiva, faz eco.
Ouve-a chamar de novo
E Samuel pensa que é Eli.
Sente aperto com o repeteco
Mas sabe que para o renovo
Precisa dizer: “Eis-me aqui!”

E o homem de Deus orienta:
“Volta ao silêncio da comunhão
E quando ouvires a voz a falar
Diga: Fala Senhor!” Tenta!
É melhor não andar na contramão
Quando a voz de Deus chamar.

Então, se submete tranqüilo,
Esperando um Deus pessoal
Relacionar-se com a Criação.
Sem entender direito aquilo
Parte em busca de um ideal
Que acalenta em seu coração.

12.5.06

TRÍPTICO DA VIDA

1

Se existe dom supremo, só pode vir de Deus.
E que nome ele recebe, senão algo sublime?
Amor! É o próprio Deus vendo os filhos seus
que foram alvo na Terra da ação que redime.

Esse dom sublime, em suprema excelência,
amor que brota de Deus e logo dele emana.
Pois só nele tal sentimento é parte da essência
que na terra aos homens une e todos irmana.

Ah, amor! Vens de Deus e para onde vais agora?
Se não ficas em mim, sinto o moer de uma dor.
Se não ficares comigo, Deus presente da aurora

ao por do sol de uma vida que se abre em flor!
Amor, amor! Sentirei longo pesar e, abatido,
prosseguirei meu caminhar, triste e sofrido...

2

Por que? Por que estás abatida ó minha alma
e é triste o teu caminhar na face desta Terra?
Se o coração pede alívio e também a calma
em Deus encontras bálsamo que dor encerra.

Exercita-te naquela - que de todas as expressões
que o homem pode fazer -, o leva a se pôr em pé!
E que acende uma chama, brasa nos corações.
E que atende pelo nome; singelo nome de fé!

A fé é um remédio que levanta qualquer enfermo.
É força a animar o corpo e o coração cansado.
Que traz para o caminho o que se acha no ermo

e faz do oprimido um ser novo, revigorado.
A fé é alimento para sempre e todo instante
e na vida do crente se faz presença constante.

3

Além do amor e da fé, de que precisa o homem?
Que sentimento necessita para atravessar a vida?
Se os dias são frios, duros, áridos e já consomem
o que ele tem de melhor que é o motor de partida?


Então não fiques parado, esperando acontecer.
Quem sabe faz o tempo, faz a hora, e o momento.
A vida é pra ser vivida, tu nascestes para crescer.
A esperança é o motor que te põe em movimento.

Porque tens sonhos, caminhas; a estrada está aberta!
E a esperança que aninhas não está pra ti deserta.
É um oásis de vida, com sombra, água e amor.

Por isso desperta e prossiga com garra no coração.
Saboreie da árvore o fruto que tu vistes como flor.
E ao que achares no caminho, chame logo de irmão.









5.5.06

DESEJOS ESPIRITUAIS

- Vai, Alma cansada das lutas do mundo,
em busca de alento, um pouco de paz...
Ao encontro de Deus, seu caminho refaz
buscando na vida um sentido profundo!

Ei-la peregrina e bem próxima a Deus,
da angústia se despindo diante do Amor.
No Sagrado buscando encontrar seu favor
para livre, serena, voar para os céus.

- E assim ao crente a Palavra falando,
em coração que ama o jeito mudando
e por fora presente um largo sorriso.

Essa alma voeja nos céus da comunhão
com um Deus que mora em seu coração
e antecipa na Terra o seu Paraíso!

Nova Friburgo, 02/01/2005 (7h55m)




28.4.06

CONFLITO DE GERAÇÕES

Você enfrenta hoje o que passei ontem;
você sente hoje o que ontem senti.
Você chora as lágrimas que já derramei
e curte emoções que eu já vivi.

O tempo não pára e a idade é remédio
que cura este mal e absorve este tédio.
No vento o tempo escorre na fronte
da água que corre para o além;
e vai para frente e nos deixa para trás.
O tempo desfaz o choro sem rumo,
a lágrima sem colo, a vida sem prumo...

Você hoje o que passei ontem;
você sente hoje o que ontem senti.
Você verte as lágrimas que eu já vi
Nos olhos cansados de muito homem.

Os ponteiros da vida se ajustam velozes.
Marcam despedidas no ouvir de umas vozes.
E o tempo que anda, coração que balança,
que sacode a poeira juntada na estrada.
Enquanto você impassível assiste
a vida voando no conforto da sacada
da casa de pedras que o tempo deixou.
E seu coração que é de carne e de amor
derrete-se ao som da bandinha da praça,
do coreto que o limo e a lama da raça
deixou para o ontem da vida lembrar,
e o hoje na derme, paixão pra sentir,
enquanto aguarda - se o amanhã existir -
na memória da vida uma história guardar.

Você enfrenta hoje o que passei ontem;
você sente hoje o que ontem senti.
Com o lenço na mão seca lágrimas ao vento
A areia escorre na ampulheta do tempo.

Enquanto isso:
Aguardamos os filhos de nossos filhos!!

Poesia premiada em Primeiro Lugar no Concurso Nacional da Editora Litteris. Será publicada em livro em agosto de 2006.

21.4.06

SEREI FIEL AO CHAMADO
A Alex Cordeiro
A voz veio suave e terna
E meu coração ouviu-a firme.
Voz de autoridade paterna
Convocando para ir-me.
A voz veio resoluta
E ecoou por todo canto;
E em mim provocou luta
E despertou o pranto.
Ao ouvir a voz de Deus
Dentro de mim e do meu lado
Travou-se batalha imensa.
Até que meu ser respondeu:
- Serei fiel ao chamado!
E reinou uma paz intensa...
Nova Friburgo, 10 de Setembro de 2005. (20h40m).